Na Pesquisa & Dados, entendemos que o acesso à saúde é ir além da simples disponibilidade de uma terapia, ele é definido pela viabilidade da jornada do paciente. A "divergência geográfica", fenômeno em que o paciente reside em um município, mas é forçado a se deslocar para outro para realizar o tratamento, é um dos indicadores mais sensíveis para medir o ônus da doença e os gargalos de infraestrutura no Brasil.
O objetivo deste projeto foi mapear a evolução do fluxo de pacientes oncológicos no SUS entre 2008 e 2024. Processamos um volume massivo de Big Data para quantificar a necessidade de deslocamento em três pilares fundamentais da oncologia: Quimioterapia, Radioterapia e Atenção Hospitalar. O insight gerado permite que gestores e a indústria farmacêutica identifiquem barreiras invisíveis que impactam a adesão terapêutica e os desfechos clínicos.
Utilizamos engenharia de dados avançada para extrair, normalizar e analisar registros dos sistemas SIA/SUS (Ambulatorial) e SIH/SUS (Hospitalar). A análise longitudinal cobriu mais de 36,4 milhões de registros individuais, permitindo a construção de uma base histórica robusta e a identificação de tendências regionais e anomalias de notificação.
O gráfico da figura 1 apresenta uma visão consolidada da divergência geográfica no período (2008-2024). Do total de 67,9 milhões de atendimentos analisados, 53,6% (36,4 milhões) envolveram divergência entre município de residência e de tratamento, com predominância da Quimioterapia no volume total (77,9%).
Apesar das políticas de expansão da rede oncológica, os dados revelam uma centralização crescente. O volume anual de atendimentos de quimioterapia mais do que dobrou no período, saltando de 1,8 milhão para 4,4 milhões. No entanto, a taxa de pacientes que precisam viajar para receber a infusão subiu de 49,5% para 55,8%.
A figura 2 traz um gráfico de linhas duplas evidenciando o gap de descentralização: o eixo Y1 mostra o crescimento exponencial do volume total de atendimentos anuais, enquanto o eixo Y2 expõe a curva ascendente da porcentagem de divergência, demonstrando que o acesso não acompanhou o ritmo da demanda.
A radioterapia consolidou-se como o serviço de maior centralização tecnológica. Historicamente, cerca de 60% dos pacientes precisam sair de seus municípios para acessar o tratamento. Mesmo com alterações nos padrões de notificação registrados a partir de 2019, a taxa de divergência permanece estagnada em patamares críticos, representando o maior ônus logístico para o paciente oncológico.
Após a estabilização dos registros de residência no sistema SIH-SUS (pós-2011), observamos que a divergência hospitalar mantém-se constante na casa dos 54%. Isso indica que metade das intervenções cirúrgicas e internações oncológicas exige migração, o que impacta diretamente os custos de suporte social e transporte suportados pelas famílias e municípios.
A figura 3 compara o índice de divergência entre as modalidades: Quimioterapia (55,8%), Radioterapia (59,5%) e Hospitalar (54%). O dado ressalta a Radioterapia como a modalidade com maior barreira geográfica de acesso.
A transformação desses dados brutos em inteligência geoespacial oferece vantagens competitivas claras para a indústria:
Este projeto reafirma o compromisso da Pesquisa & Dados em prover evidências de mundo real que movem o ponteiro do negócio. Ao compreender a geografia da oncologia no SUS, transformamos a complexidade do Big Data em assertividade estratégica para o acesso à saúde.