Inteligência Competitiva e Market Share no DATASUS (Oncologia)

O Contexto e o Desafio

Historicamente, o monitoramento do mercado oncológico no SUS sofria com um grave "ponto cego": os registros de faturamento eram baseados em códigos de procedimentos genéricos, o que impossibilitava a identificação exata da molécula prescrita ao paciente.

Com a implementação da Portaria SAES/MS nº 2 (2022), o DATASUS passou a exigir a especificação dos medicamentos antineoplásicos nas Autorizações de Procedimentos Ambulatoriais (APACs). A partir da estruturação correta dessa nova camada de dados, tornou-se possível, por exemplo, extrair o market share real e longitudinal de moléculas específicas em CIDs oncológicos de alta prevalência.

Nossa Análise

Ao estruturarmos esses dados brutos em nosso ambiente de RWE, transformamos volume em evidência clínica e de mercado.

Analisando a evolução real dos tratamentos sistêmicos ao longo de três anos, identificamos movimentações cruciais no padrão prescritivo do SUS. No cenário do câncer de mama, por exemplo, observamos uma clara transição nas terapias endócrinas: a utilização do Anastrozol cresceu de 38,02% em 2022 para 40,83% em 2024. Em contrapartida, o Citrato de tamoxifeno apresentou um declínio relativo, passando de 34,62% para 30,81% no mesmo período.

Além do volume de terapias tradicionais, nossos modelos capturam a penetração gradual de terapias-alvo de alto custo e combinações estratégicas. A terapia de duplo bloqueio (Trastuzumabe + Pertuzumabe), por exemplo, registrou um aumento constante de share, saltando de 0,36% (2022) para 0,49% (2024). Esse grau de granularidade permite avaliar o impacto prático das políticas de incorporação de novas tecnologias (ATS) no mundo real.

Esta nova informação traz a possibilidade de identificarmos rapidamente se o crescimento de uma droga está ocorrendo por expansão natural do mercado diagnosticado ou por substituição direta (canibalização) de moléculas concorrentes.

O gráfico de áreas empilhadas abaixo mostra, dentro do CID-10 C50 (Câncer de Mama), a evolução anual de share das moléculas que figuraram no Top 5 do SUS em pelo menos um dos anos analisados, Anastrozol, Citrato de tamoxifeno, Ciclofosfamida monoidratada, Trastuzumabe, Letrozol e Paclitaxel, agrupando o restante das prescrições no segmento "Outras". As 6 moléculas em destaque concentram aproximadamente 85% do volume de pacientes tratados em cada ano.



O gráfico abaixo de barras invertidas (tipo Tornado Chart) compara a variação absoluta de share (Delta, em pontos percentuais) das mesmas seis moléculas entre 2022 e 2024. As que mais ganharam mercado aparecem no eixo positivo, com destaque para Anastrozol (+2,81 pp), Letrozol (+0,70 pp) e Ciclofosfamida monoidratada (+0,13 pp), enquanto as que perderam espaço ficam no eixo negativo, lideradas pelo Citrato de tamoxifeno (−3,81 pp) e seguidas pelo Paclitaxel (−0,27 pp). O Trastuzumabe manteve-se estável no período (±0,00 pp).

Este insight revela imediatamente os "Ganhadores e Perdedores" do mercado público, permitindo medir a efetividade das campanhas de educação médica e a velocidade com que os oncologistas do SUS estão adotando os novos guidelines clínicos.


O Valor Entregue para a Indústria Farmacêutica

Estes dados abrem possibilidades estratégicas de altíssimo valor, fornecendo inteligência competitiva acionável para diversas áreas da companhia:

  • Forecast de Vendas (Market Access & BI): Projeções financeiras e de demanda baseadas na tendência real de adoção e na velocidade de transição de linhas terapêuticas no setor público.
  • Dossiês de Valor e Payer Engagement (HEOR): Geração de dados de mundo real (RWE) inquestionáveis para apoiar conversas com gestores públicos sobre o impacto orçamentário e as lacunas no tratamento atual.
  • Otimização do Ciclo de Vendas (Efetividade de Força de Vendas): Identificação cirúrgica dos centros de referência (CNPJs) que efetivamente concentram o volume de tratamento de determinadas moléculas, otimizando a roteirização de equipes de campo e de MSLs (Medical Science Liaisons).

Conclusão

Para indústrias que atuam no mercado público brasileiro, o "ponto cego" do DATASUS não é mais uma barreira, mas sim uma vantagem competitiva para quem tem a tecnologia de dados correta. A Pesquisa & Dados converte o volume massivo de registros do SUS em inteligência de alta precisão, permitindo que nossos parceiros antecipem tendências, justifiquem seus modelos de acesso e otimizem a chegada das terapias certas aos pacientes corretos. Em um mercado altamente complexo como a oncologia, ter o Market Share real nas mãos significa transformar a evidência em liderança.

Referência

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Portaria SAES/MS nº 2, de 3 de janeiro de 2022.